Darcy Cruz – Homenagem a São Paulo (Mala Artesanal) – OSE – 43 X 78 X 20 cm – Ref: DC-001

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REF: DC-001. Categoria .

Artista: Darcy Cruz
Título: Homenagem a São Paulo (Mala Artesanal)
Técnica: Óleo Sobre Eucatex
Dimensões: 43 X 78 X 20 cm

Trabalho realizado em comemoração aos 450 anos de São Paulo – Sesc Pompéia “Uma Viagem de 450 Anos” Data: 2004

DARCY CRUZ

A versatilidade das tintas

Há pintores impressionistas e expressionistas, figurativos e abstratos e primitivistas e acadêmicos. Existe, entretanto, um tipo de artista muito especial, que reúne o raro talento de pintar aquilo que deseja no estilo que acha mais apropriado. É o caso de Darcy Fernandes da Cruz, que surpreende pela versatilidade no manejo das mais variadas técnicas e na abordagem de diversos temas.
Nascido em Avaí, a cerca de 30 km de Bauru, SP, em 1931, e falecido em Mogi das Cruzes, SP, em 5 de fevereiro de 2007, Darcy começou a gostar de arte com o avô, que era construtor e tinha um hotel, fazendo a decoração com estilo naïf. O jovem o acompanhava no trabalho e o ajudava a misturar as tintas, ficando maravilhado ao ver como numa parede branca iam surgindo vacas, bois, casinhas e pés de frutas.
Darcy reconhece que aquilo foi um incentivo para que ele gostasse de desenhar e pintar. Em 1929, com a crise da Bolsa de Nova York, a região de Avaí, produtora de café, entrou em decadência. O tio, que morava em São Paulo, convidou a família para ir para a Capital, onde eles, pouco a pouco, conseguiram se adaptar.
A primeira incursão mais séria de Darcy no mundo das artes aconteceu quando trabalhava numa oficina de conserto de veículos. Com os funileiros, conseguiu tábuas e, principalmente, tintas a óleo, que devido ao preço, por serem importadas, lhe eram inacessíveis. Em São Paulo, trabalhou com tapeçaria, mas também pintava trabalhos para alguns clientes, como objetos para decoração de casas, letreiros, salões de carnaval e, posteriormente, painéis para carros alegóricos de escolas de samba ou letreiros.
Darcy estudou e trabalhou nos bairros paulistanos do Belém e Tatuapé. Em 1953, logo após seu casamento, foi para Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Tinha oficina como tapeceiro, no Brás e, começou a sofrer de problemas gástricos por comer apenas lanches, sem horário fixo. No interior, podia trabalhar perto de casa e organizar melhor a sua alimentação. Quando surgiu a chance numa empresa que precisava de um funcionário especializado, mudou para lá. Depois, montou a própria oficina.
Darcy F. Cruz se manteve em Mogi, sempre se aperfeiçoando no ato de pintar. Autodidata, quando morava em São Paulo, ia a uma galeria por semana. Ficava horas analisando os quadros e aprendendo com o trabalho dos outros. Não olhava o conteúdo, mas como a obra tinha sido feita, como era dada a pincelada, como o artista tinha conseguido dar aquele brilho e criar determinado jogo de cores.
Mesmo sem nunca ter estudado, o estilo de Darcy varia conforme a sua vontade. Preferia pintar naïf, mas sempre dizia que é mais fácil ele fazer um quadro acadêmico do que um pintor mais tradicional e conservador pintar as festas populares como ele as fazia. Para comprovar essa afirmação, bastava visitar a casa em que mora. Pelas paredes, havia, por exemplo, retratos de negros realizados em admirável estilo acadêmico.
Com sua facilidade de manobrar estilos e técnicas, Darcy, que pintava desde os 12 anos, mas só começou a expor na década de 1950, diz que prefere o naïf. Acreditava que era uma maneira de pintar espontânea, que nasce com a pessoa. Enquanto o acadêmico se limitaria ao que vê, o primitivista veria a realidade e poderia criar em cima, com liberdade para voar, que seria o mais gostoso do processo criativo.
O contato com naïfs em exposições coletivas, salões e bienais também é considerado por Darcy uma importante forma de diálogo. Para ele, “os pintores naïfs, geralmente, vêm das classes mais simples e não têm um orgulho vazio. Quando se encontram tratam-se de igual para igual. Todos conversam e trocamos idéias sobre temas, técnicas e efeitos. Aprendo muito com eles e espero que eles possam dizer o mesmo.”
Um exemplo desse intercâmbio salutar foi a passagem de Darcy da tinta a óleo para a acrílica. “Vários pintores me disseram que era melhor pintar com tinta acrílica, porque a tela ficava mais brilhante. Disse que tinha receio, porque nunca havia experimentado essa técnica. Eles me estimularam e gostei. Hoje, posso dizer que domino as duas”, avaliava.
Quanto aos temas, Darcy preferia os folclóricos. “Eles têm muitas cores, movimento e um profundo sentido. Quando vejo uma procissão, sinto aquilo que estou vendo e percebo que as pessoas que participam estão envolvidas”, afirmava. “Quando vejo uma cena interessante, faço alguns rabiscos ou esboços, esquematizando a tela, mas os detalhes, que demoram mais, deixo para fazer na hora.”
Um exemplo do processo de criação de Darcy é o quadro Movimento de Fé. “Tinha ido pescar em Alfenas, MG, e paramos, no caminho de volta, no bar de uma pequena cidade. Vi então uma procissão. Fiz o esboço, cheguei em casa e recriei a cena, colocando, por exemplo, belos vitrais naquela pequena cidadezinha. A tela se transformou em cartão de Natal da Federação das Entidades Assistenciais de Campinas e hoje está na Itália”, relatou.
Nessa procissão, assim como em outras, é possível observar uma das características mais marcantes do pintor: a ausência de rostos. “Em procissões, só pinto o rosto do santo. As pessoas que participam surgem sem os traços da face, porque não são as protagonistas”, disse.
As festas populares são o ponto forte da produção do artista. Destacam-se, por exemplo, duas cenas da Bandeira do Divino, uma à noite e outra de dia. Colocadas lado a lado, revelam o controle do pintor sobre nuances de cores e de sombras, criando duas atmosferas distintas a partir da mesma situação.
Além de pintar festas católicas, Darcy trabalhava com cenas de candomblé e terreiros de umbanda, todos repletos de cor, que salta aos olhos. “O artista naïf é o que mais representa a nossa cultura. Se um estrangeiro vem para o Brasil, deseja levar algo típico, não um vaso de flores ou uma tela acadêmica”, dizia o pintor. “Muitas vezes, somos a memória de um tempo, como acontece comigo, quando retrato igrejas, capelinhas, casas ou edifícios que não existem mais.”
O processo de criação de Darcy é baseado justamente nesse processo fascinante de olhar uma realidade e recriá-la com o livre uso da imaginação. É o caso de Vila feliz. O artista conta que, certa vez, em Rondônia, viu, do alto de uma colina, uma vila e fez um esboço. “A partir daí, fiz o quadro, deixando a vila muito mais bonita do que era na realidade. Se fosse uma artista acadêmico, não poderia fazer isso. Ao pintar naïf, ganho uma liberdade infinita.”
Entre os pintores, Darcy não esconde a admiração por Portinari. “Conheci o trabalho dele quando vi uma foto na antiga revista O Cruzeiro do mural que ele fez para a ONU, em Nova York. Aquilo me emocionou”, declarou. “Comecei a analisar o trabalho dele e a compará-lo com o meu. Numa exposição de Portinari no MASP, fiquei ainda mais admirado, olhando detalhadamente cada quadro. Há mesmo semelhanças entre o jeito de ele trabalhar e o meu. Os nossos estudos tem método, uma rotina, que uso principalmente quando estou preparando material para uma exposição importante.”
Capaz de pintar paisagens e flores em estilo acadêmico e casarios das cidades históricas de Minas Gerais ou de Parati, RJ, Darcy também gosta de pintar circos e outras festas populares. Na III Bienal Naïfs do Brasil, em 1996, apresentou justamente dois quadros, um sobre cada tema, e teve suas obras selecionadas.
Dois anos depois, na Bienal de 1998, Darcy classificou a tela O vendedor de cocada, em que é possível ver uma cidade ao fundo com o protagonista em primeiro plano. Há, no quadro, dezenas de figuras, quase em miniatura, que mostram crianças brincando, um bar e uma escola, num retrato, idealizado e pleno de cores e de detalhes, da vida numa comunidade simples do interior.
Na V Bienal Naïfs do Brasil, em 2000, o artista de Avaí continuou a dar mostras do seu talento, classificando dois quadros. Ambos vendidos logo no dia de abertura da exposição. Num deles, Violeiro do Divino, a cor dominante é o amarelo, que preenche a figura central. No outro, Festa de São Benedito surgem imagens muito caras ao pintor, como o pau-de-sebo, as mencionadas figuras diminutas sem rosto, balões e o céu azul.
Ainda em 2000, Darcy participou da XV Mostra Afro-Brasileira Palmares, em Londrina, PR, com a tela Doceira da festa do Divino. Novamente, a protagonista aparece em tamanho maior e no centro do quadro. Desta vez, com um instrumento apropriado, move um tacho, preparando comida. As figuras do fundo aparecem sem rosto e as cores quentes, como o amarelo, ajudam a criar o ambiente de alegria, que se espalha pela barracas da festa.

Darcy explica que o pintor deve ter um olho especial. “Uma pincelada ao lado de uma sombra sempre significa alguma coisa em arte. Quando vejo a natureza, uma paisagem ou uma cena cotidiana, observo o efeito das sombras e vejo mil cores. Converso com muitos que não as vêem”, afirmava. “Para pintar, é preciso uma combinação de conhecimento do assunto e memória fotográfica da cena a ser retratada. Por isso, gosto de viajar.”
Com telas na Alemanha, França, Itália, Espanha e Japão e nos acervos dos museus das cidades paulistanas de Assis e de Mococa e nas Pinacotecas de Mogi das Cruzes e de Matão, Darcy F. Cruz já mereceu as seguintes palavras elogiosas do conceituado artista plástico Zé Cordeiro: “Ele procura ser o mais fiel possível ao transpor para a tela toda a manifestação de fé e orgulho de nossas tradições folclóricas. Há uma pureza contagiante e um equilíbrio aparentemente natural em seus quadros, mas que demonstram um labor intenso de muitos anos de dedicação.”
Ao longo de sua carreira, Darcy F. Cruz foi muito mais do que um primitivista. Se suas telas sobre folclore, principalmente as que enfocam procissões, o tornaram mais conhecido, isso se deve à falta de conhecimento da versatilidade do artista. Ao pintar com óleo e tinta acrílica, sobre tela ou sobre cascas de árvores e num estilo acadêmico ou naïf, o artista não escolhe meios ou formas. “Trabalho muito. Por isso não tenho tempo de envelhecer”, diz.
A extrema delicadeza do trabalho do artista radicado em Mogi é visível em suas pinceladas. Suas festas e procissões são naïfs justamente porque brotam da alma e expressam o sentimento de um povo que ele conhece muito bem. Em suas melhores telas, ele se vale da versatilidade para construir o diálogo entre as imagens que cria, sempre a partir da realidade que ele conhece, e do universo mental sedento de sonhos do espectador. Somente artistas da qualidade de Darcy Cruz conseguem preencher essa lacuna.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).

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